A vida informática do jornalista: ritmo intenso, sedentarismo e copy and paste

Dominic Boyer acredita que o trabalho dos jornalistas não se difere muito do trabalho dos antropólogos. Professor do departamento de antropologia da Rice University, Boyer não passa seus dias fazendo trabalho de campo (como poderíamos imaginar) mas trancado num escritório, diante do computador, redigindo textos ou respondendo e-mails. Em The Life Informatic – Newsmaking in the Digital Era, Boyer saiu do escritório e foi a campo investigar, em três diferentes ambientes de produção jornalística, como se faz jornalismo hoje em dia. Sai de cena a imagem do jornalista investigativo, sempre na rua. O jornalista que Boyer observa raramente sai da redação e passa a maior parte do tempo fazendo o que ele chama de “screenwork”, trabalhando olhando para a tela de um computador.

O livro, publicado em 2013, é fruto de uma longa pesquisa dedicada ao impacto que a informação digital e a tecnologia provocaram no jornalismo contemporâneo, pesquisa esta que começou em 2005 e tomou forma entre 2008 e 2010, com uma série de pesquisas etnográficas na Alemanha.

A primeira parada de Boyer foi a AP Deutscher Dienst, o escritório da Associated Press em Frankfurt. Lá ele acompanhou a pesada rotina dos “slotters”, como são chamados os editores que verificam as pautas do dia, encaminham elas para os redatores, editam e revisam o conteúdo e por fim os distribuem para centenas de jornais, sites e emissoras de rádio e TV. Aqui temos talvez o mais radical exemplo de “screenwork”, um grupo de editores que trabalha com três monitores, lado a lado, recebendo alertas em uma tela, editando textos na tela central e usando a internet na terceira tela para checar o conteúdo.

Boyer observar uma rotina de trabalho estafante, sofisticada e que exige um editor treinado – na AP, o treinamento de um slotter pode durar seis meses. Para o antropólogo, a rotina do slotter seria “heróica, de uma forma diferente” e talvez um dos melhores exemplos de como ele vê a profissão:

“O slotwork capta para mim muitas das tendências cruciais que formam o jornalismo de notícias contemporâneo, particularmente como os jornalistas estão cada vez mais trabalhando com e através de telas e tentam chegar a um meio termo entre prática e conhecimento, com o que parece ser para eles (e para nós) canais de informação digital cada vez mais rápidos e densos”.

Da AP, Boyer partiu para um de seus principais clientes, a redação do portal T-Online, o UOL dos alemães. Aqui, ele observa um grupo de jornalistas altamente dependente das agências de notícias, lutando para se firmar como um veículo de credibilidade diante da mídia tradicional e obcecado em postar notícias com elevados índices de leitura. A observação da rotina dos editores do portal registra longas discussões em torno dos temas que ganharão destaque na disputada página inicial do T-Online e qual será o próximo update em torno de cada um destes assuntos em um site obcecado em renovar inteiramente a sua capa a cada 2 horas. Vale lembrar que Boyer fez sua observação participante em junho de 2009, em uma época de redes sociais ainda num estágio embrionário e onde os “oráculos da rede” ainda não haviam previsto o fim das homepages.

No T-Online, Boyer verá que os critérios de seleção da notícia vivem sob forte influência de uma nova entidade: os relatórios de web analytics. Os profissionais que atuam com jornalismo digital passaram a ter ferramentas de feedback que nenhuma outra mídia que o antecedeu jamais teve e, dominando termos como click-through rate, unique visitors e pageviews, passam a medir seu sucesso em torno da construção de um público leitor imaginado e da criação das chamadas de capa que capturem os cliques destes leitores. Boyer observa neste cenário o profissional muitas vezes em um conflito entre conhecimento praxiológico e mediológico. O que é notícia e o que dá audiência. O que relevante e o que gera cliques.

Este problema não se observará na mdr info, rádio pública que transmite notícias 24 horas por dia, 7 dias por semana, para os estados da Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia. Mas a mdr, ainda que isenta da pressão da monetização do seu conteúdo e de perseguir índices de audiência, também foi altamente impactada pela digitalização da comunicação – neste capítulo do livro, Boyer vai observar que as rádios se tornaram multimídia no momento em que os seus textos noticiosos passaram a ser reproduzidos no site da rádio na internet, e que isto provocou mudanças radicais no estilo do texto dos redatores. A corrida para fechar um novo boletim de notícias a cada 15 minutos mostra ainda um ritmo selvagem de produção, que não raras vezes conduz ao erro.

Para uma das fontes de Boyer, Michael S., o primeiro diretor de notícias da estação, a solução para este problema passa pelo treinamento:

“Existem algumas estratégias contra a pressão do tempo, e um critério decisivo que vem em minha mente é a profissionalização. Um jornalista bem treinado com um forte sistema de valores e um forte sentido de valores-notícia estará habilitado a lidar como o noticiário, mesmo nestas condições”.

A partir destas três experiências de produção de conteúdo jornalístico e cruzando com outras entrevistas com profissionais do mercado, Boyer faz uma série de cinco reflexões:

  1. Sim, a maioria dos jornalistas trabalha basicamente olhando para telas de computador. Nosso trabalho é um trabalho sedentário.
  2. Boyer vê um relação direta entre a chamada “vida informática” (que dá título ao livro) com o neoliberalismo. O exemplo radical disto se daria na institucionalização do uso web analytics pelos sites de notícias. Ou ainda na mudança nas relações sociais causadas pela tecnologia – cada vez mais nos relacionamos através das telas, em detrimento de outras formas de interação.
  3. Trabalhar com telas direciona a profissão rumo a imitação de conteúdos e ao aumento da automação. O problema não é só que trabalhamos diante de monitores, mas que usamos muito o recurso do Control+C (copiar) e Control+V (colar).
  4. Boyer observa que a profissão perdeu força especialmente com a transformação da comunicação do formato um-para-todos (radial) para todos-para-todos (lateral). Esta mudança mina a autoridade jornalística e altera o fluxo de publicização de informações. Se você se interessa pela questão do fluxo da comunicação na internet, não deixe de ler Linked, que já resenhei aqui.
  5. Apesar de trabalharmos diante dos mesmos dispositivos e cada vez mais na produção de conteúdo multimídia, o meio para o qual trabalhamos ainda tem grande importância na nossa atividade, bem como as instituições e nossos velhos hábitos de seleção e produção da notícia. Acho que este pra mim é o grande insight de Life Informatic: que a profissão mudou muito, e ainda há muito mais para mudar, já que seguimos fazendo as coisas dentro de estruturas de trabalho antigas.

A preocupação com o futuro do jornalismo, levaram Dominic Boyer ainda a escrever ainda algumas páginas com previsões/sugestões sobre o futuro da previsão – não é nada muito diferente do que C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky escreveram em 2012 no relatório O Jornalismo Pós-Industrial, mas todos os principais desafios e perspectivas estão ali, organizados em cinco tópicos breves e bem embasados.

Completa a obra ainda um capítulo adicional, que aborda questões sobre pesquisas antropológicas na era da informação digital, que obviamente me interessou menos, e entra ali para dar a obra um caráter multidisciplinar. Mas mesmo sem ela Life Informatic, se mostra um livro cheio de níveis e múltiplos aproveitamentos no estudo da Comunicação – talvez não o suficiente para ganhar uma edição em português, mas para se tornar uma obra de referência para quem coleciona estudos sobre pesquisas etnográficas em jornalismo ou se interessa em temas como a convergência no rádio, na estrutura organizacional das redações ou quem, como eu, está interessado no impacto das ferramentas de medição de audiência no jornalismo.

Ficha técnica

The Life Informatic – Newsmaking in the Digital Era
Dominic Boyer
Cornell University Press
À venda em papel na em e-book na Amazon

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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