Adeus, Circa.

Para um editor de site jornalístico, confesso que posso ser bem desligado. Por exemplo, eu nunca havia reparado no Circa News até participar do último congresso da Alcar, quando assisti a apresentação de um trabalho das colegas do Ubilab, da PUCRS, sobre o app. Baixei o Circa, testei, usei e comentei com colegas de trabalho, maravilhado, de como o app era interessante. Já era tarde demais.

No dia 24 de junho, 20 dias depois do meu download, o Circa comunicou aos seus usuários que estava entrando em um “hiato por tempo indeterminado“. Sem capital, e não querendo comprometer seu modelo de negócios com banners publicitários ou cobrando por assinaturas, os responsáveis pela empresa Circa 1605 Inc. encerraram a operação.

Você não sabe o que é o Circa News? Que bom, assim eu me sinto menos ignorante!

Fundado em 2011, o Circa nasceu com uma proposta de se fazer um jornalismo inovador que, nas palavras de seus fundadores, “permita que os leitores consumam, se envolvam e sigam as notícias do dia mais facilmente, fornecendo uma cobertura abrangente e direta ao ponto, em um formato adaptado especificamente para o estilo de vida mobile”. Com apps elogiadíssimos para Android e iOS colocados no mercado em outubro de 2012, o Circa conquistou investidores (teria levantado cerca de US$ 4 milhões com fundos de investimento) e também despertou a atenção e o temor de grandes veículos de imprensa – ele aparece no relatório de Inovação do The New York Times descrito como um “competidor” e como um “inovador disruptivo” do mercado da comunicação.

O artigo O resgate da memória em apps de notícia, apresentado na Alcar pela Luciele Copetti e Karen Sica e escrito em parceira com Bruna Goss e Aline Mello (quando saírem os anais, coloco o link aqui), parte da observação de que os apps de notícia costumam ignorar uma das principais características do jornalismo digital: a perenidade. A notícia consumida nos smartphones e tablets é efêmera, volátil, temporária. Quando você reabrir o app aquela notícia que você leu da última vez provavelmente não estará mais lá. A maioria dos apps ignora um dos grandes usos dos jornais e revistas: a possibilidade de você recortar e guardar uma notícia do seu interesse. (Repare nos apps de folhear jornais e revistas que você usa: alguns só permitem acessar edições recentes; os que possuem grandes arquivos provavelmente não oferecem ferramentas de busca e recuperação de conteúdos; e só alguns deles permitem que você armazene edições ou matérias; nestes, as edições ou matérias ficam armazenadas no dispositivo, de forma que se você trocar de aparelho, perde o conteúdo guardado).

O Circa resolvia este problema com o recurso Follow Story. Com o toque em um botão, o usuário poderia seguir uma determinada notícia. Com isto, a notícia não só passava a ficar facilmente acessível através de uma guia, como o usuário passava também a receber updates, com os desdobramentos do assunto do seu interesse. Que site que você conhece que faz isto?

O Circa não se resume ao Follow Story. Com sua interface baseada em cards, o conteúdo era pensado para leitura em smartphones (e quanto menor a tela, mais elegante era o resultado). A primeira tela de uma notícia fornecia uma espécie de linha de apoio, complementar ao título, mas com menos informação do que um lead. Deslizando o polegar sobre a tela, outros cards se sucediam, ampliando as informações. Alguns abriam com depoimentos, outros com imagens ou mapas, ou oferecendo links externos para ler mais informações, construindo uma narrativa sequencial, mas fragmentada. Ao final da matéria, as fontes do texto apareciam listadas, com mais uma série de links.

O problema, claro, é que produzir um BOM conteúdo pra um Circa não deveria ser simples. (Este é o momento em que um jornalista espírito de porco diria que é extremamente banal escrever textos com frases curtas e em ordem direta. Ignore-o). Não existe convergência que permita a Rede Globo colocar seu conteúdo no formato do Circa, assim como não é fácil para a Folha fazer conteúdo no formato do BuzzFeed. Você não compra conteúdo pra alimentar uma plataforma destas na Agência Estado ou na Reuters. Você tem que editar o conteúdo. E editar o conteúdo para o Circa implicava reempacotar a informação de novo, repensar a estrutura da notícia.

O que acho notável no Circa é que ele não foi mais um projeto de produção jornalística usando uma plataforma já existente. Não se faz um Circa no WordPress, ou em qualquer CMS do mercado, pago ou gratuito. Pro Circa existir foi preciso criar uma outra plataforma, modelar um outro tipo de banco de dados. A evolução do jornalismo digital não acontece sozinha, depende de desenvolvimento tecnológico. O Circa foi realmente um caso bacana, unindo programação, criação de interfaces e produção jornalística.

O hiato por tempo indeterminado do Circa é um pouco a derrocada de quem espera com ansiedade para ver um produto jornalístico digital inovador conquistando o público, a crítica e, especialmente, encontrando o caminho da monetização sustentável. É uma pena que não foi este. Que venha o próximo.

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital, com mestrador em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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