E se os jornalistas fossem taxistas?

Este texto foi publicado originalmente no site youPIX, no dia 10 de setembro de 2015.

Preocupados com a desvalorização da sua atividade, jornalistas se uniram num movimento contra o que chamam de concorrência desleal — a divulgação de informações, a redação de notícias e a edição de conteúdo na internet por profissionais não diplomados.

Os autores de blogs, sites e página em redes sociais não-jornalistas passaram a ser chamados de clandestinos, digo, precários.

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Como bons jornalistas, eles começaram sua campanha com comentários irônicos (muito bem redigidos) nas redes sociais. Apoiados pelo patrões da grande mídia, eles estenderam sua ação através de editoriais furiosos, reportagens que mostravam o drama de jornalistas freelancers que não conseguiam mais cobrar o piso de seus clientes e campanhas publicitárias bancadas pela Associação Nacional de Jornais (que no fundo estava se lixando para quem estava escrevendo o quê, só queria mesmo era garantir sua fatia do bolo publicitário).

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O sindicato convocou uma grande passeata contra o jornalismo cidadão.

Parece que fracassou: havia mais gente cobrindo o evento do que se manifestando.

As fotos da passeata publicadas nos jornais, no entanto, exibiam cartazes fabulosos:

“App de notícia, só ser for da Folha”.

“As empresas jornalísticas são regulamentadas pela Lei de Imprensa. Quem regulamenta o Buzzfeed?”

“Não alimente as blogueiras de moda”.

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Num momento de maior violência, uma leitora afirmou ter sido agredida num aeroporto. Lia textos sugeridos pelos amigos nas redes sociais quando foi cercada por um grupo de jornalistas aos gritos de “sai do Facebook, volta pro UOL” e “teus amigos não sabem nada, só quem pode fazer curadoria de conteúdo é jornalista”!

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A polêmica envolvendo jornalistas e não-jornalistas foi parar no Legislativo e no Judiciário. Em debates ferrenhos, blogueiros, social medias e os citizen journalists invocavam a liberdade de expressão.

Os jornalistas defendiam suas reserva de mercado usando os mais variados argumentos (o filho do dono de uma grande companhia de mídia chegou a falar em direito hereditário).

Alguns representantes da sociedade civil, convidados a opinar, defenderam os webwriters, alegando que o serviço prestado por nossa imprensa é muito ruim, quando não mentiroso. (Neste momento, o publisher da Veja colocou as mãos no bolso, olhou para cima e começou a assobiar).

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O assunto se estendeu por anos e anos. Alguns jornalistas, por desgosto, ou falência, trocaram de profissão.

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E não é que antes da polêmica terminar um leitor, num raro momento de atenção, percebeu:

– Não é que o jornalismo produzido pelos veículos de comunicação melhorou?

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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