Snapchat e Instagram Stories: uma história de amor e ódio

Minha amiga Deborah Cattani, doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais na Universidade do Porto, em Portugal, passou boa parte de 2015 intrigada com o Snapchat. Acreditava que o futuro do jornalismo digital passava pelas fotos instantâneas e microvídeos gravados com a câmera do smartphone na vertical, postadas após sofrer intervenções através de aplicação de textos e filtros de imagens, popularizados pela rede social de apelo jovem.

A Deborah já partiu para outro objeto de estudo, mas parte deste seu interesse está documentado nos anais do V Congresso Internacional de Ciberjornalismo, onde, ao lado de Paulo Frias, apresentou o trabalho Snap-Expresso: um estudo de caso sobre o jornal português Expresso. Na pesquisa, observou os experimentos do jornal na cobertura das eleições legislativas portuguesas e entrevistou o gestor de inovação digital e a repórter escalada para a função, que alegava ser “desafiante transformar histórias complexas e dados complexos em excertos explicáveis em 10s”.

Aqui, do outro lado do Atlântico, neste dois anos, olhei com reservas o Snapchat e descartei sua adoção no jornal que gerencio, o austero Jornal do Comércio (JC).

Mas agora, em 2017, fui, enfim, vencido.

Não aderimos ao Snapchat, mas ao seu adversário/plagiador, o Instagram Stories. Nos últimos meses minha equipe no JC começou a postar fotos e vídeos no Stories, primeiro na redação e por fim em coberturas externas. A ideia inicial era usar o Stories como um instrumento de promoção do conteúdo do jornal – comentar os destaques da edição ou falar sobre os bastidores de matérias, como já vínhamos fazendo em vídeos postados no Facebook e no Youtube (e como nosso site de empreendorismo GeraçãoE já vinha fazendo com sucesso no Instagram há um bom tempo). Ddali para produzirmos conteúdo exclusivo para o Stories foi um passo, e só mais um para que eu mesmo assumisse alguma destas coberturas.

No dia 18 de maio postei no Stories alguns vídeos do primeiro grande ato #ForaTemer em Porto Alegre, após vir a público as primeiras informações da cabulosa gravação do presidente da República com o empresário Joesley Batista. As imagens eram minhas e da repórter Bruna Suptitz. Dias depois a pauta foi menos política e mais cultural: cobrir a empolgante Noite dos Museus, que movimentou 10 espaços culturais de Porto Alegre. Com o apoio dos editores Cristiano Vieira e Caroline da Silva, da estagiária Bárbara Lima e mais uma vez da repórter Bruna Suptitz montamos um breve e colorido mosaico de imagens e vídeos do evento.

A minha conclusão da experiência:

– Não é que fazer snaps/stories é muito legal?

A ferramenta é ágil e instantânea como um boletim de rádio; coloca o jornalista na função de exercitar um grande poder de síntese; reaproxima o jornalismo da prática do storytelling, já que através do corte o obriga a sequenciar a informação; é multimídia como nem sempre o webjornalismo é; é nativamente móvel; e deliciosamente artesanal e tosco nas suas limitações, permitindo colagens como as que costumamos ver na imprensa alternativa – fazer uma postagem no Stories não é muito diferente de cortar e colar textos e imagens para montar a página de um fanzine.

Mas por que o conteúdo postado no Snapchat e no Stories precisa ser descartável? Por que não pode ser perene? Por que os vídeos do #ForaTemer e da Noite dos Museus não podem ser consumidos no dia seguinte, ou depois?

Deborah e Paulo Frias, em sua pesquisa sobre o Snapchat, observam nele uma forte relação com a Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman. Os snaps e os stories fluem e então, 24 horas depois, desaparecem. O jornalismo digital no Snapchat e no Instagram Stories é, portanto, efêmero.

Mas numa época em que buscamos reencontrar a relevância do jornalismo (e não só do jornalismo digital) é de bom senso investir nossos escassos recursos em um tipo de conteúdo que amanhã não estará mais no ar?

Estou amando o Instagram Stories. E o odiando também, com igual intensidade.

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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