Linked, tudo está conectado?

O livro Linked – a Nova Ciência dos Networks tem aparecido nos últimos anos na bibliografia recomendada para o processo seletivo da pós-graduação do PPGCOM da Fabico/Ufrgs na linha de pesquisa em Informação, Redes Sociais e Tecnologias. É curioso, porque esta não é um livro “da área”. É uma obra que, por seu tema, se propõe multidisciplinar – começa na matemática para abordar a história do estudo das redes, e com a evolução do tema atravessa áreas distintas como as ciências de computação, a sociologia, a biologia e a química, entre outras matérias. Logo, por necessidade e por ser uma leitura extremamente acessível, é uma excelente porta de entrada para os profissionais de comunicação que buscam uma compreensão mais ampla da organização da Internet, da WWW ou das redes sociais.

Repare que o título da obra de Albert-László Barabási é assertivo: fala sobre “a nova ciência das networks”. De fato, em 1999, Barabási apresentou em companhia com Réka Albert um estudo apontando que um típico específico de rede (as redes sem escalas, como a World Wide Web), são regidas por algumas regras (ou melhor, leis). Estamos diante de uma nova teoria, que vem ganhando corpo e relevância. Nesta obra, Barabási vai além daquele trabalho inicial para mostrar que as características peculiares da WWW se repetem em outras áreas de conhecimento e na natureza – nos ecossistemas, nas reações químicas de um molécula, na observação da disseminação de uma epidemia… Algumas constatações são realmente surpreendentes!

Escrita em 2002 (mas publicada no Brasil em 2009), Linked é anterior ao boom da social media – Barabási abordará as redes sociais, mas aquelas existentes no mundo físico, das interações entre as pessoas, com destaque para o capítulo que explica a origem da Teoria dos seis graus de separação. Ainda que não contemple a social media, Linked é referência para diversos estudos na área de análise de redes sociais – está nas referências bibliográficas de livros como Métodos de pesquisa para internet (Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral). Sua aplicação é ainda mais evidente nos estudos do jornalismo e da comunicação na web – especialmente por o autor se debruçar especialmente sobre a WWW e os hiperlinks que conectam distintos documentos, o que a torna uma importância referência para estudos de hipermídia e hipertextualidade.

Ainda que em alguns momentos a leitura de Linked seja difícil pros estudiosos de humanas – ao explicar algumas fórmulas matemáticas – os conceitos da teoria das redes não são extensos. Nós, arestas ou links, graus, clusters, hubs, redes randômicas e redes sem escala – meia dúzia de conceitos definem o assunto. As características que ele observa nas redes sem escalas também são basicamente três – o constante crescimento (as redes estão sempre em expansão, crescendo um nó por vez), a conexão preferencial (“ricos ficam mais ricos”, a observação de que determinados nós costumam concentrar mais links) e a aptidão competitiva (a percepção de que os nós das redes competem por conexões, o que explica a concentração na rede).

A obra está sujeita a críticas. Num determinado capítulo, Barabási irá se debruçar sobre a lei de Pareto (princípio 80/20), buscando nela uma relação com a tendência que observa de que um nó de uma determinada rede concentra a grande maioria dos links. É algo que vemos por exemplo na viralização de conteúdo na rede – quando parece que todos na internet estão falando sobre o mesmo vídeo ou compartilhando o mesmo meme. Em determinado momento o autor observará que existem algumas redes que tendem à concentração excessiva – a qual chama “vencedor leva tudo”. Barabási vai tentar usar como exemplo o monopólio da Microsoft no mercado de sistemas operacionais. É um argumento tolo: não existe uma rede de todos os usuários de sistemas operacionais que esteja sendo dominada pela Microsoft. A concentração de mercado é uma lei econômica, não uma característica própria das redes. Nem tudo pode ser observado pela ótica das redes.

Até por levantar uma ou outra questão que deixará o leitor com a pulga atrás da orelha, Linked é uma ótima leitura, por fazer pensar. Barabási é antes de tudo um grande contador de histórias. E as 200 páginas do livro (na verdade são 241, mas 41 são só de referências bibliográficas) podem ser vencidas rapidamente, superada uma eventual inaptidão do leitor com as ciências exatas. Saio da leitura intrigado e convicto que, para compreender esta que é a maior invenção da humanidade, a Internet, o profissional de comunicação precisa certamente das ferramentas que a matemática, a estatística e as ciências da computação dispõe.

P.S.: O livro possui também um capítulo que vai relacionar as redes com a economia – do marketing viral que tornou o Hotmail um sucesso, à reação em cadeia que gerou a crise asiática de 1997, passando pela organização hierárquica das empresas e os problemas da economia em rede provocados pela terceirização. Meu sonho era que ele escrevesse uma página que fosse sobre esquemas Ponzi, marketing mutinível e outras picaretagens do gênero. Assim, poderia fazer cópias para enviar aos amigos que teimam em acreditar em esquemas de pirâmide.

Ficha técnica

Linked – a Nova Ciência dos Networks
Albert-László Barabási
Leopardo editora
À venda em papel na Amazon e em formato digital importado na Livraria Cultura

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital, com mestrador em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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  1. […] Boyer observa que a profissão perdeu força especialmente com a transformação da comunicação do formato um-para-todos (radial) para todos-para-todos (lateral). Esta mudança mina a autoridade jornalística e altera o fluxo de publicização de informações. Se você se interessa pela questão do fluxo da comunicação na internet, não deixe de ler Linked, que já resenhei aqui. […]

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