Três artigos para fazer pensar do Alcar 2015 – 10º Encontro Nacional de História da Mídia

Participei como ouvinte entre os dias 3 e 5 de junho de 2015, do Alcar 2015 – 10º Encontro Nacional de História da Mídia. O encontro promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, na Fabico/UFRGS, teve como tema “A Memória na Era Digital”. Este foi o meu primeiro contato com um congresso de comunicação – nos meus tempos de universitário eu pensava só em mercado de trabalho e nunca me interessei por iniciação científica o que, agora percebo, foi um erro.

Os anais eletrônicos do evento saíram no segundo semestre e aproveitei para ler algumas das apresentações que mais me chamaram a atenção do GT História da Mídia Digital. Clicando no links abaixo, você pode baixar estes artigos diretamente do site da Alcar:

TACA-LHE PAU JORNALISTA!
O desafio de ir além do relato e contar a história por trás dos fenômenos criados pela Internet

Gisele Santos, especialista em marketing digital pelo IERGS, fez uma apresentação redondinha falando de memes, como eles se espalham e como a imprensa tem se apropriado deles. A Gisele pegou como exemplo um dos mais fofos memes brasileiros, o Taca-lhe Pau, e uma bela reportagem criada a partir dele, da RBS TV de Santa Catarina, que explicava quem eram os meninos, quem era a vó Salvelina e, em especial, quem é que ainda hoje brinca de carrinho de lomba. A ideia do artigo pode parecer banal, mas preciosa: Gisele sugere que a função da imprensa não deveria ser apenas reproduzir o meme, fazer o mesmo que todo mundo está fazendo, em busca de mais um clique. O papel da imprensa poderia residir em explicar o meme, colocar contexto nele, ou mesmo humanizá-lo.

Fabricação colaborativa de conteúdos e circulação de informações em mídias digitais: reflexão sobre as tensões ao jornalismo

Eloísa Klein, professora da UFRN, também questiona o papel da grande mídia neste cenário atual de circulação de memes pela internet. Mas aqui a questão é menos de distribuição e mais de colaboração. Eloísa está observando como as pessoas se engajam em criar, alterar e fazer recircular os memes (especialmente no contexto das eleições de 2014, rica em exemplos neste sentido) e como este tipo de informação circula fora do eixo do jornalismo. A crise do jornalismo na era da Internet mostra aqui mais uma faceta: houve um tempo em que a mídia chamava a audiência para colaborar e ela vinha. Hoje, a audiência não precisa mais dos veículos para veicular seu conteúdo e disseminar alguma ideia. Até porque estas novas práticas de produção de conteúdo não estão mais em formatos que possam ser apropriados imediatamente pela mídia – elas são colaborativas (onde antes a participação da audiência era individual) e muitas vezes são transgressoras e experimentais. Eloísa reflete sobre o problema, a saída ainda não sabemos. Mas na Alcar eu anotei algumas falas dela, que compartilho aqui: 1) precisamos estudar os fluxos deste conteúdos colaborativos. 2) os veículos de comunicação deveriam pensar além do tradicional “chamar o leitor para colaborar”. 3) os veículos de comunicação deveriam questionar seu hábito de querer estar no centro da produção de conteúdo colaborativo.

Vinte anos de Zero Hora na internet (1995- 2015)

O Grupo de Jornalismo Digital da Fabico/UFRGS preparou uma pesquisa de fôlego sobre a história de um dos primeiros jornais brasileiros a entrar na Internet, a Zero Hora. Luciana Mielniczuk, Alciane Baccin, Marlise Brenol, Maíra Sousa e Priscila Daniel conduziram oito entrevistas em profundidade que permitiram traçar um panorama do jornal digital – num texto que tem tudo a ver com o trabalho da Alcar e que encaixa perfeitamente na celebração dos 20 anos de internet comercial no Brasil. O artigo identifica quatro fases distintas de posicionamento da Zero Hora na Internet e, em especial, uma importante ruptura, quando a empresa cria uma operação independente de internet através do ClicRBS. Esta estrutura, depois de sete anos, acabou sendo desmobilizada, reintegrando a produção de conteúdo na internet com a produção do jornal impresso. É interessante observar que mesmo nas empresas que mais planejaram sua presença digital, o movimento pode ser errático, o investimento pode ser desperdiçado, o posicionamento pode ser revisto. Ser pioneiro implica correr o risco de errar e ter prejuízo.

Dias após a apresentação do artigo na Alcar, certamente influenciada pela pesquisa, a ZH fez sua própria reportagem para marcar o dia 7 de junho de 1995, aniversário da entrada do jornal na rede (clique aqui para abrir, o arquivo tem cerca de 1 Mb).

Fiquei lisonjeado por ter sido uma das fontes da pesquisa – ao lado dos executivos de comunicação que tocaram a Zero Hora e o ClicRBS e alguns colegas que hoje tem posição destacada na área acadêmica. Mas, mais do que isto, fiquei especialmente animado em ver no artigo como se organiza uma pesquisa de resgate histórico de um produto digital. Há muitas outras boas histórias de bons sites aí para serem contadas, e temos muito a aprender com elas. Espero eu mesmo poder escrever algumas delas no futuro.

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Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. Editor de internet do Jornal do Comércio e fundador do blog TeleSéries.

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