Fiz um (news)game!

O campo do jornalismo digital (que hoje me parece um termo meio arcaico, e hoje me arrependo de ter registrado este domínio) teve suas fases. Houve uma breve era da velocidade, da corrida para “dar primeiro” a notícia. Teve a fase do vídeo, de sair em disparada das redações com smartphones para captar conteúdo audiovisual. Teve ainda a busca pelo longform, a grande reportagem multimídia. A apresentação visual de dados ainda mobiliza muita gente. Mas, nesta lista toda dos recursos que o jornalimo na web pode explorar, a cereja no bolo, o grande desafio, sempre foram o newsgames.

Ao mesmo tempo em que a gamificação avançava em todos os aspectos da nossa vida, ela também foi objeto de desejo em redações. A ideia de você conseguir informar o usuário dentro de um videogame, através de uma interface interativa e imersiva, desafiou (desafia?) muita gente nas redações. Virou campo de estudo na Comunicação e é só fazer uma busca rápida em qualquer portal científico para ver que existem dezenas de artigos sobre o tema.

Nos meus anos de Jornal do Comércio sonhei muito em um dia construir um newsgame. As outras coisas todas fizemos por lá: fomos rápidos em algumos momentos, fizemos bons vídeos, algumas reportagens multimídia, embedamos dados nos textos, geolocalizamos informação. Mas o game nunca saiu.

Eis que neste ano, o primeiro que fiquei longe das redações, e voltei para a graduação, como estudante de Tecnologia em Sistemas para Internet no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), acabei sendo desafiado a construir um game para a disciplina de Construção de Página Web II. E então voltou aquele filme na cabeça: que tal usar o tempo e o conhecimento técnico que agora possuo, para tentar fazer um newsgame?

O resultado foi o quiz Bolsonaro: Verdadeiro ou Falso? construído a partir de dados publicados em serviços de fact-checking, que desenvolvi ao longo do último semestre e publiquei na rede agora em dezembro.

Sobre ele é importante destacar duas coisas:

  1. O game recebeu alguns bons elogios justamente por conta da sua atualidade, por lidar com esta questão da checagem de declarações de políticos, que é um território ainda em fase de consolidação no jornalismo brasileiro. E eu, que estou acostumado a conviver com o pessoal da Comunicação, não fazia ideia que na área da TI estes termos como debunking e fact-checking não são tão familiares fora do nosso universo.
  2. Um quiz é possivelmente o tipo de jogo mais simplório que existe, porque em termos de programação ele é resolvido com poucas linhas de código – você verifica se a resposta está certa ou errada (o famoso if) e usa uma variável para contor o número de acertos (um contador).

Ou seja, foi legal trazer o fact-checking para perto de outras pessoas (Bolsonaro: Verdadeiro ou Falso? já bateu os mil acessos em pouco mais de 10 dias) e poder enfim escrever os textos e programar um newsgame, ainda que não tenha adotado o formato mais original. A missão de informar o leitor foi atingida, o desafio de fazer isto com uma narrativa mais complexa não.

Mas a graça está em ter tido esta experiência e atingido mais um objetivo neste momento profissional, em que estou aos poucos me afastando das redações e do jornalismo.

Quer testar teus conhecimento em identificar as cascatas do Bolsonaro? Acesse aqui:
https://jornalismodigital.jor.br/quizgame/

Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital, mestre em Comunicação Social pela PUCRS, com passagens pelas redações de Zero Hora, UOL e Jornal do Comércio. É diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

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