Jornalistas (desinformados) para o Brasil

Este texto foi publicado originalmente no site da Coletiva.net, no dia 4 de junho de 2018.

Em sua palestra no Diálogos ARI de Jornalismo, na noite de sexta-feira, 25 de maio, Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente Editorial do Grupo RBS, reiterava seu discurso de defesa do jornalismo feito por fontes com credibilidade.

Enquanto ele falava, o caos nas estradas do Brasil se ampliava e smartphone no meu bolso disparava mais notificações que o normal. Os alertas vinham do grupo do Whatsapp Jornalistas para o Brasil que, até então, mantinha sua rotina de funcionamento: divulgação de pautas de assessores de comunicação de órgãos públicos, links de alguns blogueiros querendo promover suas postagens, compartilhamento de breaking news de veículos de comunicação e eventuais tretas entre jornalistas motivadas por divergências políticas. Mas, nesse dia, sem que muitos membros percebessem, uma virada estava acontecendo.

Conforme o desabastecimento nas cidades aumentava, o compartilhamento de fontes de informação consolidadas (G1, Folha, O Globo, Estadão) escasseava e crescia no grupo a postagem de conteúdos repassados sem qualquer checagem: vídeos, arquivos de áudio, links para textões de opinião postados no Facebook.

Marcelo Rech falava sobre a necessidade de atuarmos como certificadores da informação, ao mesmo tempo em que pipocavam vídeos no grupo de caminhoneiros, quase todos sem a identificação de seus autores ou de onde falavam.

O grupo Jornalistas para o Brasil foi criado por um assessor de comunicação da Secretaria de Governo da Presidência, que me enviou o convite através de seu e-mail oficial. A ideia era irrecusável: “congregar profissionais de comunicação de redações, dos governos, de ONGs e de plataformas digitais, com o intuito de troca de notícias e informações, bem como difusão de pautas, textos e produções, além de debater assuntos de interesse nacional”.

Na prática, a convivência no grupo sempre foi conflituosa, mesmo com a criação de uma série de regras e do aumento do número de moderadores. A entrada e saída de membros era constante. O perfil dos usuários, em geral, era conservador.

Em pelo menos dois momentos fui advertido por moderadores, sempre por esbravejar contra colegas que postavam memes ou faziam postagens panfletárias. Apesar da convivência estressante, ao longo de um período de dois meses escrevemos pelo menos três matérias para o jornal a partir de sugestões de pautas recebidas pelo grupo.

Mas no último sábado de manhã, as postagens absurdas se intensificaram. Às 8h43 recebemos um áudio atribuído ao jornalista Marcelo Rezende, prevendo a paralisação de caminhoneiros, supostamente gravado alguns anos antes de falecer. Às 10h19, chega cópia daquele famoso vídeo tosco atribuído à Embraer com críticas ao Brasil e aos políticos. Até às 11h, os dois conteúdos são desacreditados. O moderador adverte: “caros colegas, chequem as mensagens antes de postar no grupo. Por favor!”.

Para a minha surpresa, ele avalia que o nosso grupo de Whatsapp não está tão mal: “Outros grupos de jornalistas por aí, a cada 10 postagens, oito ou nove são de fakes, ou achismos, ou tentativas de manipulação”.

As notícias compartilhadas pela manhã alertavam para a possibilidade da paralisação dos caminhoneiros ser um locaute. No fim da tarde, no grupo, as convicções eram outras. Uma jornalista afirmava, com contundência: “isso foi feito pela esquerda”.

As incorreções aumentavam. Alguém afirma que “o prefeito de Angra dos Reis, determinou parar as Usinas de Angra I e II”. A informação checada pela Agência Brasil é de que Fernando Jordão avaliava esta possibilidade, mas que a Eletronuclear afastava este risco. Um textão abordava a pauta dos caminhoneiros de exigir o “cumprimento da lei que instituiu o voto impresso nas eleições 2018”. Até hoje, esta suposta pauta da categoria, que vi pela primeira vez no site O Antagonista, não foi citada em nenhuma reportagem dos principais veículos de imprensa brasileiros.

Surge um áudio no grupo, acompanhado da mensagem “Espalhem esse áudio que vazou do FDP do ministro Carlos Marum” (sic). No áudio, alguém afirma que o general Villas Bôas ameaçou o governo Temer, chama Eliseu Padilha de burro e, por fim, afirma que “esse governo já caiu amigo”. Em uma rápida busca na internet, o áudio aparece também atribuído ao deputado Edinho Bez (MDB-SC). O competente site Boatos.org reunia uma série de evidências de que o áudio não é de Bez. Assim como não é a voz de Marun.

Chega outro vídeo, agora do coronel Caixeta, da Polícia Militar de Goiás, chamando o presidente “de grande mentiroso Temer, Pinóquio”. O vídeo está circulando na internet, repercutido em sites de teor suspeito como News Rondônia e Diário do Brasil. Alguém leva a sério as declarações de Caixeta e diz “…não justifica esse cidadão militar pelas redes sociais chamar o presidente de mentiroso. Se fosse nos tempos do militarismo já mais sairia daquele local tão livre assim. Dali mesmo sairia direto para penitenciária”. Outro colega, com um pontinho de autocrítica, responde: “duvido q esse moço seja policial”.

A teoria de conspiração da esquerda começa a ganhar corpo. A prova apresentada pela jornalista são vídeos e textos atribuídos ao Acons (Associação Nacional dos Conservadores) e ao site Crítica Nacional, que se propõe a fazer “conteúdo jornalístico online conservador e de direita da melhor qualidade”.

Neste momento, saio do sério. “Sério gente, nas últimas 24 horas o que se postou de desinformação neste grupo é de deixar os cabelos em pé. Vocês são jornalistas, se vocês não têm filtro o que dirá a população. Liguem o desconfiômetro”.

Sou criticado. A jornalista conservadora argumenta que “isso aqui não é imprensa não. É pauta. Bastidor”.

A verdade é que a categoria (ou pelo menos esta fatia da categoria) não parece lidar bem com as críticas. Qualquer confronto no grupo é afastado, retomando o foco sempre em torno das ideias em comum da maioria. O moderador segue seu papel de incensar o grupo: “estamos todos de parabéns, nesses dias tão confusos e conflituosos”.

Os debates sobre infiltrados no movimento dos caminhoneiros ganha corpo. Um jornalista que ontem questionava esta possibilidade agora passa a ser assertivo: “A esquerda está com certeza infiltrada nesse movimento dos caminhoneiros. E o que ela mais quer é intervenção militar. Isso não irá acontecer”.

Aparecem uns jornalistas sensatos para dizer que isto não faz muito sentido. Um profissional de Brasília diz “só faltaram dizer que a culpa é do Lula. E a polarização continua. Firme e chata!!!!”. Ele é censurado por mencionar o nome do Lula – o que desrespeita uma das regras do grupo, de mencionar políticos.

Surge um jornalista então apresentando a seguinte tese: “Uma intervenção militar a esta altura do campeonato interessaria muito à esquerda, pois transformaria os políticos presos por corrupção em ‘presos políticos’. Uma ditadura militar nesse momento oficializaria o discurso de que a esquerda fez bem ao País e que a elite preconceituosa a persegue. Aumentaria o mimimi vitimista, os líderes socialistas pediriam asilo em algum país bacana e os pobres dos seus seguidores aqui pegariam em armas ‘em nome da democracia’… Uau!! Daqui a 20 anos os caras regressariam ao Brasil como heróis e a história começaria toda de novo!”

Era pouco mais de 13h30 quando li que o projeto da esquerda no Brasil é sofrer um golpe militar para retornar ao poder em 20 anos. Talvez tenha sido o fato de estar com fome, ou cansado, mas ali perdi a cabeça e chamei o colega de ignorante.

Fui expulso do grupo.

Desde então meu celular parou de me notificar com fake news e teorias conspiratórias.

Mas desde então passo os meus dias pensando: quem, afinal, poderá informar corretamente os jornalistas desinformados do Brasil?

Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital, mestre em Comunicação Social pela PUCRS, com passagens pelas redações de Zero Hora, UOL e Jornal do Comércio. É diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

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