Noticiário agitado turbina a audiência de sites de notícias; números de GaúchaZH não fecham com dados do IVC

Lembro de ter soltado a seguinte piadinha no Twitter no final de janeiro: “Este primeiro mês do governo Bolsonaro parece que está durando um ano”. De fato, o mês de janeiro de 2019 foi rico de acontecimentos, com a posse de Bolsonaro e de seus ministros, com dezenas de declarações polêmicas e desmentidos. Pra completar o quadro, tivemos ainda um triste desastre ambiental, que ocupa ainda hoje boa parte do noticiário.

Esta montanha-russa de acontecimentos, somados ao fato de que estamos vindo de um mês de dezembro geralmente morno por contas dos feriadões, turbinou a audiência dos sites auditados pelo IVC. Pela primeira vez em cinco meses que publico estes monitoramentos de audiência, todos os 19 sites verificados tiveram crescimento no número de páginas visualizadas, e todos na casa dos dois dígitos. Isto não é comum!

Na tabela abaixo você pode ver que dos 19 sites dos quais faço a coleta dos dados, o ranking pouco mudou. Folha, O Globo, Extra, Estadão e O Dia seguem sendo os veículos mais acessados.


veículo dez/18 jan/19 %
Folha 205.860.992 283.448.101 37,69
O Globo 118.003.787 170.683.330 44,64
Extra 102.404.252 135.746.219 32,56
Estadão 102.080.781 128.704.939 26,08
O Dia 55.996.561 67.423.689 20,41
Veja 40.153.560 55.282.235 37,68
ClicRBS 47.139.293 53.986.370 14,53
Valor 27.525.772 41.292.177 50,01
Exame 27.220.869 35.255.769 29,52
O Tempo 20.054.824 29.822.463 48,70
Campo Grande News 20.577.193 25.517.731 24,01
A Tribuna 11.197.253 12.615.267 12,66
Época 5.534.120 10.544.843 90,54
Época Negócios 4.213.039 6.743.425 60,06
Bem Paraná 2.959.336 4.501.931 52,13
Jornal NH 3.239.189 4.315.955 33,24
O Pioneiro 3.454.561 4.263.437 23,41
Diário Gaúcho 2.600.757 3.733.983 43,57
DCI 1.697.826 2.030.662 19,60

Na sexta posição sim, temos uma mudança: a Veja aumentou em 37,68% seu número de pageviews em janeiro em relação ao mês anterior e assim ultrapassou o ClicRBS, do qual vou falar mais adiante.

Mas em termos de crescimento percentual, o destaque foi a concorrente Época: a revista semanal da editora Globo quase dobrou seu número de páginas acessadas, numa alta de 90,54%. A Época teve dois dias com acessos muito acima da curva: no dias 28 e 31 de janeiro. No primeiro dia, a revista teve grande audiência com a cobertura da tragédia de Brumadinho, em especial com a coluna da Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, compilando diversas fotos e informações falsas que circularam nos primeiros dias após a tragédia. Já no dia 31 recebeu 1.489.474 de impressões de pessoas interessadas em ler a reportagem de capa da semana: A história de Lulu Kamayurá, a índia criada como filha pela ministra Damares Alves.

Depois da Época, o site auditado que mais cresceu em visitação foi a sua irmã Época Negócios, com um crescimento de 60,06%. Foram 730.005 acessos só no dia 25 de janeiro, dia do rompimento da barragem. Neste dia, a publicação antecipou a reação do mercado financeiro. Desastre em barragem da Vale deve derrubar Ibovespa na segunda-feira, era o título de uma das matérias postadas.

Completando a lista dos 5 sites que mais cresceram porcentualmente o seu volume de acessos, estão o Bem Paraná, o Valor e O Tempo. O site especializado em economia, curiosamente, mais uma vez teve sucesso com um tema mais leve: foram quase 670 mil visualizações da matéria registrando que o presidente Jair Bolsonaro almoçou em um bandejão dentro de um supermercado no primeiro dia de sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Já O Tempo, que possui entre 800 e 900 mil visualizações de páginas em média por dia, viu seu número de acessos disparar a partir de 25 de janeiro, com o estouro da barragem de Brumadinho. Entre outros textos de grande acesso, destaca-se a lista com o nome dos 413 funcionários da Vale que estavam desaparecidos no dia 26 de janeiro.

Veículo do Grupo RBS celebra números diferentes dos registrados pelo IVC

Aqui no Rio Grande do Sul nos deparamos em janeiro com uma matéria do jornal Zero Hora que comemora números do portal GaúchaZH que destoam bastante dos dados apresentados pelo IVC.

Reproduzi abaixo a página do jornal impresso, mas a matéria Assinaturas digitais de GaúchaZH crescem 47% está disponível também na web. O texto diz que a GaúchaZH, portal formado da fusão das operações digitais do jornal Zero Hora e da Rádio Gaúcha, já conta com 89.716 assinantes digitais e teve 70 milhões de páginas visualizadas em outubro de 2018. Realmente, são números para celebrar.

Assinaturas digitais de GaúchaZH crescem 47%.
Página publicada em Zero Hora em 29 de janeiro de 2019

A questão é que os dados divulgados pelo jornal não batem com os auditados pelo IVC. O Poder360 compilou recentemente números de assinaturas referentes a 2018 na matéria Efeito ‘Bolsonaro bump’ foi tímido e jornais tradicionais perdem assinantes.

Enquanto a GaúchaZH afirma ter aumentado em 47% sua base de assinantes digitais, o IVC diz que o crescimento foi de apenas 1%. A GaúchaZH fala em 28.663 novos assinantes, o IVC diz que foram 844 novos assinantes. É muita diferença!

Curiosamente, os números absolutos não são tão diferentes. O IVC aponta que a GaúchaZH tinha 86.308 assinantes digitais em dezembro. A diferença entre o número divulgado pela companhia jornalística e o número da auditoria é de 3.408 assinantes – uma discrepância aceitável, provavelmente ocorrida por conta de algum critério técnico (inadimplência? Assinaturas feitas mais ainda não pagas? Assinaturas de cortesia?).

O problema então está no dado de 2017. O portal do Grupo RBS diz que encerrou aquele ano com 61.053 assinantes. O IVC diz que ela tinha 85.464. É bem estranho um veículo subdimensionar um número como este. Parece que a intenção aqui era mostrar que o mercado de assinatura digital segue crescendo forte. Mas talvez não esteja.

Destaca-se no texto ainda a informação que a GaúchaZH teve 70 milhões de visualizações de páginas em outubro de 2018 – este teria sido seu recorde no ano, em função da cobertura eleitoral.

A questão é que a GaúchaZH é um subdomínio do portal ClicRBS, operando no endereço gauchazh.clicrbs.com.br. Ou seja, a GaúchaZH é parte da audiência do ClicRBS. E em outubro, como registrei em uma coluna anterior, o ClicRBS tinha tido apenas 47.694.398 de visualizações.

Se o Clic teve 47,7 milhões de visualizações, não é aceitável que a GaúchaZH ter 70 milhões. Os números não batem.

Obviamente, aqui é possível que exista algum erro no levantamento do IVC. Talvez algumas páginas de GaúchaZH não estejam incluídas na medição. É algo que seria interessante o veículo checar.

Mas se pegarmos a lista das 20 URLs mais acessadas do ClicRBS agora em janeiro, veremos que 15 são da GaúchaZH (outras três são do Diário Gaúcho e outras duas de O Pioneiro). Parece que o grosso da audiência está sim sendo contabilizado.

Vale destacar que o site de Zero Hora era auditado em separado pelo IVC até setembro de 2017, quando ocorreu a fusão das operações no digital com a Rádio Gaúcha. Com a troca de domínio, o ajuste na medição não foi feito. No último mês que o IVC auditou a Zero Hora integralmente, em julho de 2017, ela tinha 26,392 milhões de visualizações de páginas.

Na virada do mês encontrei uma nova pista do que pode estar acontecendo: o Grupo RBS lançou uma nota comemorando que a GaúchaZH teve recorde de visualizações em janeiro. Aponta ter tido 80 milhões de visualizações no site, mobile site e aplicativos. A nota destaca que seu texto mais lido no mês (e o terceiro de sua história) foi Corpo de motorista de app desaparecido no RS é encontrado em Santa Catarina, com 757 mil visualizações. Para o IVC, esta matéria também foi a mais lida, com 561.520 acessos. Aqui fica a impressão de que esta grande diferença nos números não é provocada porque algum conteúdo não está sendo mensurado. Mas porque existem grandes discrepâncias na mensuração. Talvez a GaúchaZH esteja usando internamente outro sistema de métricas que não o Google Analytics. Ou ainda seus acessos por apps não entrem no cálculo do IVC.

De qualquer maneira estas discrepâncias sempre causam estranhamento. Seria legal entender porque elas acontecem. Como concluí na minha dissertação de mestrado, uma das características do jornalismo digital é sua mensurabilidade. A mensuração é privativa do veículo. Mas quando falamos em veículos que estão buscando a transparência, contratando auditorias para mostrar pro mercado publicitário o seu alcance, este tipo de dúvida não deveria existir.

Epílogo

Há alguns meses comecei a postar esta coluna também no meu Linkedin. E foi bacana porque o alcance e o feedback aumentou consideravelmente. E algumas pessoas que tiveram o primeiro contato com a coluna começaram a me questionar porque eu só trabalho com número de page impressions e não com os unique browsers e sessions, que também estão disponíveis nos relatórios do IVC?

Bom, a resposta é que faço isto por hábito. Comecei a compilar estes dados em 2016, quando ainda era editor do Jornal do Comércio. Lá, a implantação de um paywall nunca foi finalizada e nossa maior preocupação comercial era entregar os número de impressões de banner contratados pelos nossos anunciantes. Então o indicador de desempenho (ou KPI, como chama a turma do marketing) que fazia sentido para nós era o número de pageviews. Se fossemos um veículo com paywall certamente teríamos que estar muito mais atento a outras métricas.

Além disto, o excesso de trabalho me impedia de puxar e analisar todos os dados, de forma que precisei focar em uma métrica. Agora, atendendo a estas sugestões, compilei em janeiro também os números de sessões e acessos únicos dos 19 sites acima. E mês que vem prometo começar a explorar outras métricas e fazer um cruzamento destes dados. Ou seja, esta coluna deverá mudar bastante.

Paulo Serpa Antunes Escrito por

Jornalista especialista em jornalismo digital, mestre em Comunicação Social pela PUCRS, com passagens pelas redações de Zero Hora, UOL e Jornal do Comércio. É diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).